Quando fecho os olhos, tudo se faz chão
Felipe Caldas
Pedra, papel, tesoura; ou terra, água e fogo — brincadeira ou reflexão? Entre nuvens e pedras, desenhos, cerâmicas e pinturas, um ser brincante salta de seu trampolim, cujo destino são as nuvens ou o fundo da piscina. Rodrigo Núñez (Rodi Insano) afirma, rindo: “O humor não omite nada; muito pelo contrário, ele expõe o trágico, revela o melancólico. É desse humor que eu falo.”
No trampolim, na corda bamba, no tabuleiro ou no ateliê, Rodi nos propõe brincar e subverter a lógica produtivista da sociedade do capital. Numa cultura em que toda ação parece orientada a um fim externo — vencer, lucro, prestígio, visibilidade, felicidade futura —, o sentido de sua ação artística está no próprio ato, no qual “é impossível separar a mão do pensamento. O pensamento está no gesto”. O jogo, como lembra Huizinga, é uma das formas mais puras de experiência humana justamente porque se basta a si mesmo. Esse impulso lúdico, em que brincar é estar no presente, habitar o instante com inteireza, convoca a coletividade e situa o cerne de seu processo criativo. Das falhas emergem sonhos e, dos sonhos, resistências à redução do mundo, das pessoas e das experiências a meros meios e fins.
No jogo proposto pelo artista, fracasso, clown, gesto, brincar, humor, ofício e movimento são elementos fundamentais. Como afirma: “Cada momento de ateliê é um convite para brincar. Sou um artista brincante que entende o risco e a seriedade da brincadeira.”
A presente exposição articula desenhos, pinturas, colagens, peças cerâmicas e intervenções do artista no espaço expositivo, associadas a reflexões textuais tanto do artista quanto do curador sobre seu processo de trabalho, em uma expografia constituída de modo coletivo. Cada disposição espacial, cada percurso no espaço é capaz de produzir novas narrativas, novos sentidos, outras possibilidades de jogo e de vir a ser. A exposição ergue-se enquanto obra-jogo coletivo — um jogo cuja vitória, ou vencedor, é o prazer de estar aqui.
A exposição emerge da última série de peças cerâmicas produzidas e se expande para um universo mais amplo da produção poética de Rodi, em um esforço de evidenciar conexões entre linguagens, conteúdos, formas e o lado pensante do gesto. Pois criar é trabalhar. Esse trabalho exige entrega material, intelectual e espiritual, uma fé em si e no mundo. Eis a seriedade do brincar.
Nesse horizonte, figuras, entidades ou personagens sustentam-se em finas pernas que se erguem de cabeças, como continuidades de outro ser em ascensão ou queda. Casas, nuvens e cores gravitam o horizonte, o ateliê e o espaço expositivo tornam-se ambientes de práxis espiritual — talvez existencial — nos quais o gesto é pensamento e o fazer é filosofia. Nesses espaços, o artista se coloca diante da matéria, entendendo que também é matéria; articula-se com os demais jogadores em um estado de confiança ontológica — transforma e se transforma, compõe, recompõe e se compõe — em um processo orgânico no qual a ordem construtiva tradicional é invertida, subvertida, colocada ao avesso, enquanto convida a todos a um movimento semelhante. O trabalho artístico torna-se um ato de fé coletivo. A fé que o move é a fé no fazer brincante, que conclama gestos de amor, gargalhadas e, às vezes, lágrimas, em exercícios de liberdade. Uma cartografia viva das possibilidades do ser.
Verão de 2026

