Entre tensões e encontros, três artistas transformam o jogo em linguagem na Ocre Galeria |
Exposição Pedra, papel, tesoura reúne Túlio Pinto, Guilherme Dable e Bruno Borne na Ocre Galeria, com texto crítico de Bruna Fetter |
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A exposição Pedra, papel, tesoura, que abre ao público no próximo dia 11 de abril, sábado, na Ocre Galeria, em Porto Alegre, reúne três artistas cujas trajetórias se cruzam há décadas, mas que raramente compartilharam o mesmo espaço expositivo. A coletiva propõe tornar visível uma conversa contínua, feita de afinidades, contrastes e deslocamentos, entre diferentes linguagens da arte contemporânea. Com trabalhos que transitam entre escultura, desenho, pintura, vídeo e imagem digital, a mostra articula a produção de Túlio Pinto, Guilherme Dable e Bruno Borne a partir de um princípio comum: a relação. Se, por um lado, cada artista opera em um campo específico – das estruturas materiais de Túlio às experimentações gráficas de Dable e às investigações imagéticas de Borne, por outro, há entre eles uma proximidade que não se limita à estética, mas se estabelece como pensamento compartilhado. “O que une esses artistas é uma amizade de longa data e uma troca constante. A exposição surge como a vontade de formalizar relações que já existem”, afirma Bruna Fetter, responsável pelo texto crítico. “Eu estou trabalhando no texto a partir do livro do Ítalo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Esse livro fala de linguagem, questões formais, questões éticas e eu vejo isso atravessando a exposição”, observa a pesquisadora e professora do Instituto de Artes da UFRGS. O título da exposição, inspirado no jogo infantil, sugere um sistema de regras simples, mas aberto a variações. Nele, não há hierarquia fixa, mas um movimento contínuo de forças, onde cada elemento pode, em determinado momento, sobrepor o outro. Essa lógica atravessa também a expografia: obras distintas, que não buscam síntese, mas convivência. A exposição é a materialização de um diálogo em processo entre os três artistas que se desenvolve há 20 anos. “É uma oportunidade de tornar público algo que sempre aconteceu no privado: uma conversa sobre arte, sobre processo, sobre escolhas”, resume Túlio Pinto. Afinidade com diversidade de linguagens Na exposição Pedra, papel, tesoura, que permanecerá aberta à visitação pública até 9 de maio, a diversidade de linguagens não dilui o conjunto, ao contrário, é justamente no contraste que se estabelecem as relações. Túlio Pinto apresenta quatro esculturas, duas de chão, uma de parede e uma suspensa, construídas a partir de materiais como vidro, aço e pedra. Seu trabalho investiga as tensões e equilíbrios possíveis entre esses elementos, em composições que evidenciam estruturas e forças em relação. Já Guilherme Dable reúne desenhos e pinturas em pequeno formato, desenvolvidos como parte de uma prática contínua. Os trabalhos operam sob regras auto-impostas, como a limitação de intervenções, e se resolvem em gestos rápidos, aproximando o fazer artístico de uma lógica de jogo. ´”É quase um jogo; eu me imponho regras, como não voltar mais de três vezes ao desenho. Eles precisam se resolver rapidamente”, revela. Por sua vez, Bruno Borne apresenta três trabalhos inéditos, entre esculturas de parede, vídeo e imagem digital. Sua pesquisa, que parte de uma investigação da imagem, ganha prolongamentos no espaço, nesta exposição, explorando a transição entre o virtual e o material. “Agora, as imagens se desdobram em forma escultórica”, antecipa. Apesar das diferenças formais, os três artistas compartilham um campo de reflexão comum. “A influência não é direta nas obras, mas no pensamento”, como sintetiza Dable, evidenciando que é na troca, mais do que na forma, que a exposição encontra sua unidade. Sobre os artistas convidados Bruno Borne (Porto Alegre, RS, 1979) é artista e arquiteto, doutor em Poéticas Visuais pelo PPGAV/UFRGS. Trabalha com reflexões, espelhamentos, luz, som e computação gráfica realizando videoinstalações, esculturas e impressões digitais Desde 2010 vem realizando exposições em diversos museus, galerias e instituições culturais no Brasil. Participou da 13ª Bienal do Mercosul. Possui obras incorporadas aos acervos do MARGS, MAC-PR, MAC-RS e das prefeituras de Porto Alegre e Santo André. Tem obras adquiridas junto aos acervos privados do Banrisul, Grupo Zaffari e UFC. Guilherme Dable (Porto Alegre, RS, 1976) é Doutor em Poéticas Visuais pelo IA/UFRGS. Foi um dos fundadores e cogestor do Atelier Subterrânea, espaço independente baseado em Porto Alegre ativo entre 2006 e 2015. Sua pesquisa abarca principalmente as linguagens do desenho e da pintura, expandindo-se para investigações que flertam com a ocupação do espaço, não se atendo somente aos suportes tradicionais das linguagens. Seu trabalho pensa relações entre arquitetura, paisagem e as características diagramáticas da linguagem do desenho, utilizando-se eventualmente de métodos não convencionais para produzir desenhos. Foi artista residente em instituições nos Estados Unidos e na Finlândia. Túlio Pinto (Brasília, DF, 1974) é formado em artes visuais com ênfase em escultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (2009). desenvolve trabalhos entre a escultura e a instalação, explorando a espacialidade e as propriedades físicas e visuais da matéria. Os conceitos de equilíbrio e de harmonia permeiam de maneira singular a elaboração de cada peça, em que o jogo entre pesos, tamanhos e densidades formula a coexistência de opostos como rigidez e fragilidade, equilíbrio e queda. Utilizando materiais como concreto, chapas de ferro e vidros, sua produção investiga o conceito de efemeridade e transformação que circundam a relação entre corpos e o espaço. Realizou exposições individuais em instituições como o Museu Oscar Niemeyer (Curitiba) e a Fondamenta Sant’Apollonia (Veneza), além de participar de importantes mostras coletivas, como a 13ª Bienal do Mercosul. Recebeu diversos prêmios ao longo de sua trajetória e suas obras integram coleções públicas e privadas no Brasil e no Exterior. Sobre Bruna fetter Professora e pesquisadora do Instituto de Artes da UFRGS, Bruna Fetter é Doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo PPGAV desta mesma Universidade. Diretora Cultural da Fundação Vera Chaves Barcellos, é curadora de diversas mostras, sendo as mais recentes “Há pouco?” (2026, FVCB), “Amazona, ou a dança das resistências” (2024, MACRS), “O pé esquerdo” (2024, Galeria da PBSA), e “Haverá Consequências” (2022, FVCB). Em 2025 foi agraciada com o Prêmio Gilda de Mello e Souza, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), e o Destaque em Curadoria Institucional, do XVIII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas. |
SERVIÇO:
O Quê: “Pedra, papel, tesoura,” coletiva reunindo os artistas Túlio Pinto, Guilherme Dable e Bruno Borne
Onde: Ocre Galeria | Av. Polônia, 495, São Geraldo, Porto Alegre/RS
Quando: Abertura dia 11 de abril, sábado, das 11h às 14h. Visitação de 13 de abril a 09 de maio de 2026, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, das 10h às 13h30min.

