A natureza do gesto
Teresa Poester

Retomo aqui o título “nature du geste”,
de minha exposição em Paris, 2019,
por serem estes trabalhos
também concebidos em Eragny-sur-Epte,
região rural da Picardia,
onde aprendo a desenhar há 27 anos
com os diferentes gestos
que a natureza me ensina.

O inverno, seus galhos magros e secos,
o verão, suas árvores grávidas,
suas folhas leves e gordas,
criam linhas geométricas e orgânicas.

É essa paisagem, com suas nuances,
passagens sutis de luz borrando os contornos,
que determina minha forma
de pensar o desenho … e desenhar.

Sobre a natureza do gesto de Teresa Poester

A sala é ampla com pé direito elevado e porte de pavilhão industrial.

Observada desde a porta de entrada, a disposição dos trabalhos nos convida a deter o passo e a observar o arranjo por um momento.

Duas paredes, de um lado e de outro da sala, se apresentam tomadas por desenhos negros que avançam para o fundo onde um painel frontal fecha o horizonte com obras trabalhadas em cor.

No percurso inicial entre os quadrados negros de papel disposto frente à frente, uma quebra sutil da austeridade se produz, aqui e ali, por diferenças no alinhamento das molduras, variações nas dimensões e no espaçamento entre os desenhos.

Avançamos em compasso com a sobriedade assentada por essa primeira sequência de obras.

Para o olhar que se distancia das paredes, prevalece a geometria austera, mas entre as bordas do papel, outro mundo nos convoca: diante de um e de outro trabalho, somos capturados pelo torvelinho de luz riscado à caneta, veloz e branca, sobre a escuridão.

O gesto gráfico de Teresa, amadurecido ao longo de sua trajetória como desenhista, pintora e, mais recentemente, gravadora, transborda para o espaço do pavilhão com uma energia que parece não ter fim. Em um instante, somos tragados para dentro do turbilhão de linhas e, num volteio, lançados para o próximo enovelado de ramos se consumindo em fios e manchas, à mercê de uma ventania de folhas.

Um tanto do sentimento que nos toma é de assombro diante da profusão de gestos que encobrem folhas de papel pareadas com a amplitude de nossos braços abertos. Outro tanto, é o efeito produzido pela ausência de conflito entre a geometria estabilizada do quadrado que contém a composição e a vida frenética das linhas que o aceitam sem perder a energia de sua combustão. Cada elemento existe sendo o que é.

Uma pausa ao final do corredor.

Silêncio, música e farfalhar de folhas.

Detemo-nos diante de uma série de gravuras em pequena escala. Reencontramos, nelas, o formato do papel quadrado com o interior emaranhado em luz, agora, grafada sob a forma de linhas impressas. A sobreposição do grafismo sulcado na matriz e transposto ao papel como linhas de relevo quase imperceptível nos convida a acercar o passo e o rosto para uma aproximação física da matéria.

Nesse intimismo, nos aquietamos para ouvir o diálogo entre os prelúdios compostos pelo músico Vagner Cunha. Deixamos que as formas, as cores e o preto, que fazem cada uma das cinco gravuras, dialoguem com as manchas, pontos e linhas sonoras.

Demoramo-nos nesse gabinete de papeis guardados em vitrine. Vemos e ouvimos os casulos de linhas que parecem prestes a romper o vidro ao encontro das notas. Encontramo-nos em um bom momento para um último intervalo.

Com um passo atrás, olhamos ao redor, recompomos a visão do todo, reencontrando a instalação que é mãe e filha de cada obra grafada em “A natureza do gesto”.

Superfícies emaranhadas, vívidas ou sombrias, geradas pelo movimento do punho que passou por toda a parte, integram um ecossistema gráfico, onde cada peça, visual e musical, tem o seu lugar e interexiste.

Assim como ocorre quando estamos diante de uma floresta e é possível discernir a mata das árvores que a compõem, cada desenho, gravura e som que integram a instalação de Teresa também lateja a força que irrompe a terra para afirmar-se ao sol.

Nos últimos anos, Teresa vem apresentando exposições que não são passíveis de serem expografadas ou curadas por outra pessoa. Como ela diz: “não são exposições para mostrar trabalhos individuais, montados isoladamente sobre a parede. São instalações”.

Instalações convocam nosso corpo. À medida que interagimos com “A natureza do gesto”, o espaço arquitetônico se transforma: o pavilhão industrial cede à mata grande e aos micro embaralhamentos das gravuras, (que concentram intimismo), e dos desenhos, (que explodem em escala).

Se o corredor de entrada – com seus desenhos negros atravessados por linhas de luz – sugere que a escuridão predomina na instalação, a parede final nos devolve o branco do papel recortado por gestos vegetais que espalham matizes vivos de vermelho, azul, rosa, amarelo e verde. Diante dela, vêm à lembrança os jardins do ateliê de Pissarro, em Éragny-sur-Epte, na França, onde Teresa alterna morada com sua casa no Brasil. Por causa da cor de Pissarro (e como ela nos chega pelo tributo que a artista presta ao mestre), nos inclinamos a associar a paisagem de Éragny à impressão vívida do sol sobre o frescor dos jardins.

Mas existirão dias sem noite?

“Na escuridão estrelada, a vida também pulsa!” – parecem nos dizer os riscos brancos sobre fundo negro.

Deixamos a sala tomados dessa última comoção.

O trabalho de Teresa acaba de nos devolver dias conciliados com a noite – e no giro da luz mordiscando folhas, a ferocidade alegre de estarmos vivos.

*Maria Helena Bernardes é artista visual, escritora

e professora de história da arte.

Teresa Poester apresenta ‘A natureza do gesto’ na Ocre Galeria a partir de 16 de maio

No mês em que comemora quatro anos de existência, a galeria recebe trabalhos inéditos da artista que investiga o desenho entre gesto, paisagem e experimentação, fruto de uma pesquisa em movimento

A artista Teresa Poester inaugura, no dia 16 de maio, sábado, às 11h, a exposição “A natureza do gesto”, na Ocre Galeria, em Porto Alegre. A mostra reúne trabalhos recentes que aprofundam sua investigação sobre o desenho como campo de experimentação, articulando gesto, paisagem incorporando diferentes linguagens e materiais. A visitação segue de 18 de maio a 20 de junho.
Nesta nova exposição na Ocre Galeria, o público encontrará um conjunto de obras que reafirma a linguagem de Teresa Poester, ao mesmo tempo em que apresenta desdobramentos inéditos em sua pesquisa. Reconhecível em seus gestos e procedimentos, o trabalho da artista se abre, aqui, a novas experimentações, marcadas sobretudo pela predominância do preto e branco.
Entre grandes formatos e trabalhos menores, a exposição constrói um campo de tensões visuais e materiais, no qual o gesto se desdobra em diferentes suportes e linguagens, reafirmando o desenho como eixo central de uma investigação em constante transformação.
“A natureza do gesto” também marca os quatro anos de existência da galeria, inaugurada em maio de 2022, espaço que vem se consolidando como um polo de arte contemporânea, destacando-se ao receber o prêmio de Instituição Destaque no 17º Prêmio Açorianos de Artes Plásticas (2025).

Sobre a mostra
Três anos após apresentar, na mesma galeria, a exposição “Furta-Cor, de volta aos jardins”, que celebrou seus 45 anos de trajetória, que lhe valeu o Prêmio Açorianos como artista destaque (2024), Teresa Poester retorna à Ocre com um novo conjunto de obras que reafirma a continuidade e o desdobramento de sua pesquisa investindo sempre e em novas possibilidades do desenho, explorando tensões entre gesto, suporte e espacialidade.
“Retomo aqui o título ‘nature du geste’ da exposição feita em Paris em 2019, por serem estes trabalhos também concebidos em Eragny-sur-Epte, região rural da Picardia, onde aprendo a desenhar há 27 anos com os diferentes gestos que a natureza me ensina”, comenta a artista. “O inverno, seus galhos magros e secos, o verão, suas árvores grávidas, suas folhas leves e gordas, criam linhas geométricas e orgânicas. É essa paisagem com suas nuances, passagens sutis de luz borrando os contornos, que determina minha forma de pensar o desenho e de desenhar”, justifica. Se na mostra anterior a cor ocupava um papel central, em diálogo com um contexto sociopolítico específico, a produção atual se orienta por uma dimensão mais íntima, atravessada pela experiência da artista em seu ateliê na zona rural da França, onde vive há mais de duas décadas. Entre os novos experimentos estão grandes desenhos em fundo preto com linhas brancas, realizados com caneta acrílica, explorando tensões e variações de ritmo. A esses se somam trabalhos em preto sobre fundo branco, além de obras menores entre o preto, o vermelho e a cor em registros mais pontuais. Em contraponto, a exposição também reúne um conjunto de trabalhos intensamente coloridos, estabelecendo um jogo de forças entre contenção e expansão cromática. Gravuras em metal e litogravuras integram esse percurso, incluindo a série em fundo preto impressas em branco, resultado de um processo técnico rigoroso.
Diferentes elementos de uma natureza com estações bem marcadas passam a formar seu desenho, que utiliza o corpo inteiro em movimento, como uma dança ou uma luta diante do suporte. Surgem gestos tensos e incisivos, como um embate físico com o papel, nesta mostra agora evidenciada pelo alto contraste entre o preto e branco, e por momentos de cor, com linhas orgânicas e fluidas.
A mostra apresenta, ainda, experimentações que articulam gesto digital e intervenção manual, gerando obras únicas, nas quais a impressão é posteriormente trabalhada com desenho.
Complementando o conjunto, uma caixa com gravuras, acompanhada de um disco de Vagner Cunha (Prelúdios Livro II) composto em parceria com Ney Fialkow, é exibida como objeto especial, com as gravuras também apresentada na parede.
Ao longo de sua trajetória, Poester compreende cada exposição como uma instalação, uma construção espacial em que obra e montagem são indissociáveis. A museografia, nesse sentido, não é apenas suporte, mas parte integrante do pensamento artístico.
Assim, o intervalo entre a montagem na sede anterior da Ocre e esta mostra, no novo espaço da galeria, revela um deslocamento sensível marcado por uma exterioridade do mundo a uma escuta mais interna, onde o desenho se reinventa a partir do corpo, do ambiente e da experiência acumulada há quase cinco décadas.

A experiência europeia
A trajetória de Teresa Poester é atravessada por uma intensa circulação entre Brasil e Europa, experiência que impacta diretamente sua produção. Ainda nos anos 1980, durante os anos que residiu na Espanha, a artista vivencia uma inflexão decisiva em seu trabalho. Até então marcado por um desenho com presença da figura humana, seu processo passa a incorporar a pintura e a avançar em direção a uma linguagem menos literal, explorando estruturas mais abstratas, especialmente em séries ligadas às paisagens e às janelas.
Essa transformação marcada pela pintura é impulsionada tanto pela convivência com artistas de vertente abstrata quanto pelo acesso a museus e obras que ampliam seu repertório visual. A experiência europeia inaugura, assim, um campo expandido de referências que segue reverberando ao longo de sua trajetória.
A partir do final dos anos 1990, já estabelecida entre Brasil e França, Poester intensifica esse diálogo, tanto pelo contato contínuo instituições e exposições tanto pelas exposições que realiza individualmente e com artistas europeus quanto pela vivência cotidiana em seu ateliê na zona rural francesa.
É nesse contexto que a paisagem passa a desempenhar um papel central em sua produção. Essa vivência entre diferentes territórios redefine continuamente o trabalho da artista, expandindo as possibilidades do gesto como forma de relação com o mundo.

Contribuição dos alunos
Além de sua produção artística, a trajetória de Teresa Poester é profundamente marcada pela docência. “Minha atuação como professora se construiu a partir de uma relação intensa de trocas, entendida como um campo de aprendizado mútuo”, afirma. Ao longo do tempo, seus trabalhos se desdobraram em parcerias entre alunos e colegas, numa relação indissociável entre ensino e prática artística.
Experiências coletivas, como o Ateliê 43, criado em 2012 com alunos hoje artistas atuantes, abriram seu desenho para outras linguagens como vídeo ou meios digitais, passando a explorar processos híbridos, cruzamentos que expandem as possibilidades do desenho contemporâneo.
Incorporar repertórios, questionamentos e conhecimentos trazidos por diferentes gerações de estudantes e artistas, acentua suas inquietudes e colabora uma prática em constante transformação.

Sobre Teresa Poester
Teresa Poester nasceu em Bagé, em 1954. O desenho gestual em grandes dimensões e suas combinações a linguagens contemporâneas é o centro de seu trabalho. Além de exposições coletivas em diferentes países, realiza individuais no Brasil, Argentina, Espanha, Bélgica e França a partir dos anos 80, obtendo premiações de desenho.
Nos anos 80 dedica-se à arte postal trabalhando também como cenógrafa para teatro e cinema, como grafista e ilustradora. De 86 a 89 estuda pintura na Universidade Complutense e no Círculo de Belas Artes de Madri.
Professora do Instituto de Artes da Universidade Federal UFRGS em Porto Alegre de 1996 a 2018, entre 1998 e 2002, realiza doutorado na França, Paris 1- Sorbonne. Retornando da França, de 2006 a 2009, intensifica sua pesquisa mesclando desenho gravura, fotografia e vídeo. Em 2012, com um gupo de jovens artistas, cria em Porto Alegre o Atelier D43, grupo de desenho e vídeo performance. Em 2016, realiza pós-doutorado na França sobre a residência de 40 dias com o Atelier D43 no espaço Anis Gras, conhecido centro cultural na periferia de Paris e ministra disciplinas de desenho na Universidade Jules Verne em Amiens. Atualmente, Teresa vive e trabalha entre Eragny sur Epte, a uma hora de Paris, e Porto Alegre.

SERVIÇO:
O Quê: “A natureza do gesto” exposição de Teresa Poester
Onde: Ocre Galeria | Av. Polônia, 495, São Geraldo, Porto Alegre/RS
Visitação de 18 de maio a 20 de junho de 2026, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, das 10h às 13h30min.
Quanto: Entrada franca
Recomendação etária: Livre
Assessoria de Imprensa:
Silvia Abreu (MTB 8679-4) | 06/04/26 | @asilviamaraabreu