Pedra, papel, tesoura

Como aproximar poéticas, a princípio, distintas e buscar um denominador comum? Quais chaves de leitura usar para mirar certos trabalhos? A partir destas perguntas, lançamos um olhar para a mostra Pedra, papel, tesoura, que apresenta obras dos artistas Bruno Borne, Guilherme Dable e Túlio Pinto na Ocre Galeria. Para além da relação mais óbvia e imediata entre a tríade de elementos do título e o trio de artistas, outras possibilidades rapidamente são convocadas ao olhar. A materialidade das poéticas e obras sendo a mais imediata.

A tesoura corta o papel, o papel embrulha a pedra, a pedra destrói a tesoura. Essas são as três operações essenciais, as regras do jogo que nomeia a exposição. No entanto, o que tais operações significam? No que resultam?

Na exposição, os preceitos que articulam as obras partem das linguagens da arte. Assim, cada combinação permite ressignificar os conjuntos de trabalhos expostos, não apenas formalmente, mas inclusive.

Em Seis propostas para o próximo milênio, Italo Calvino apresenta um conjunto de proposições que pautariam a dimensão estética das artes num futuro iminente, como um prenúncio de questões a aflorar na virada do milênio: “leveza, visibilidade, rapidez, multiplicidade, exatidão, consistência”. Escrito como uma série de conferências em 1986 e publicado dois anos depois, em uma época sem internet ou inteligência artificial, o autor não vislumbrava os impactos da tecnologia no nosso cotidiano. Mas, desde o aspecto humano, conseguia imaginar esta série de preceitos que funcionariam, talvez, como um código ético, regras de um jogo a ser jogado coletivamente.

Se transportadas para o campo das artes visuais, poderiam essas palavras singelas funcionar como uma série de conceitos e operações norteadoras? Parece que sim.

Voltando a atenção às obras, podemos traçar analogias entre o trabalho de Túlio Pinto e as relações de peso e leveza proporcionadas pela pedra; a visibilidade, pelo vidro. O papel, suporte dos desenhos, traços e cores de Guilherme Dable, preza por exatidão e consistência. A tesoura, como metáfora dos cortes e planos das imagens construídas por Bruno Borne, permite vislumbrar uma multiplicidade caleidoscópica de ângulos que mudam com rapidez.

É aqui que a correspondência se complexifica. Pois, apesar do jogo partir dos três elementos, os embates são apresentados de dois em dois. Tal pareamento permite a realização de enfrentamentos diretos, confrontos de linguagem que são replicados no espaço expositivo. Não em termos de haver um vencedor e um perdedor, como no jogo, porque os vínculos estabelecidos não são absolutos ou hierárquicos, mas, sim, relacionais.

Isto é, a cada um desses materiais é atribuída uma série de qualidades que lhe permitem, momentaneamente, superar o outro. O interessante deste raciocínio é que características como força, comumente atribuídas à pedra, somente têm validade quando confrontadas com a tesoura. A força ou o peso da pedra não são suficientes para sobrepor a maleabilidade e inventividade do papel. Como a agudez da lâmina da tesoura que desliza com facilidade neste elemento, reduzindo-o em significância. Aqui, cada elemento é tensionado ao seu limite, sendo tão forte quanto sua materialidade.

Formalizando conversas e trocas de décadas existentes entre os artistas, Pedra, papel, tesoura expõe diálogos e aprofunda vínculos existentes. Como no lote de desenhos de Dable, também fruto de um jogo pessoal com regras autoimpostas, aportando consistência pela exatidão da linha, do corte seco da fita, da mancha advinda do gesto. Os objetos, vídeos e imagens de Borne são atravessados pela experimentação com o espaço, relacionando concretude e virtualidade, numa composição de volumes e reflexos múltiplos e cambiantes. Já em Túlio Pinto o conjunto de esculturas em vidro e aço funciona por óbvio contraste, como negativos que se complementam, gerando visibilidade a um tensionamento mantido em perfeito equilíbrio. Um, ao sustentar o outro, estabelece possibilidades de inversão dos pesos que ecoam nos trabalhos dos outros artistas.

Pedra, papel, tesoura mostra distintas formas de representar o mundo e questões próprias à arte. Se nela temos o o uso dos materiais como operação fundante, a variedade de recursos formais disponíveis multiplica as possibilidades. Como resultado, temos obras e relações sofisticadas, também atravessadas pelas propostas de Calvino. Talvez esteja aí o que as aproxima.

Bruna Fetter