A Ocre Galeria apresenta, a partir de 29 de setembro, “Intervalo – Coleção 2026”, com curadoria de Paula Bohrer.
A exposição reúne trabalhos de 27 artistas e propõe uma experiência construída a partir de provocações visuais, plasticidade e materialidade, estabelecendo relações entre diferentes obras e o espaço expositivo. A exposição poderá ser visitada até 31 de outubro.
A mostra também aproxima arte e colecionismo, ampliando a compreensão sobre a formação de coleções e sobre as possibilidades de relação entre a obra e os espaços onde ela pode estar inserida. A proposta evidencia a interlocução entre artistas, galerias, arquitetos, consultores de arte e colecionadores, valorizando a atuação integrada desses diferentes agentes no circuito das artes.
Participam da exposição Bruno Borne, Carlos Pasquetti, Carlos Trevi, Clóvis Dariano, Cris Ioschpe, Eloisa Tregnago, Felix Bressan, Fernanda Valadares, Flávio Gonçalves, Gonzaga, Heloisa Crocco, Karin Lambrecht, Laura Fróes, Leopoldo Plentz, Lilian Maus, Luiz Felkl, Luciano Teston, Marilice Corona, Nelson Wilbert, Nick Rands, Patricio Farías, Paulo Whitaker, Rommulo Vieira Conceição, Teresa Poester, Vera Chaves Barcellos, Vik Muniz e Xico Stockinger.
SERVIÇO
O quê: Exposição “Intervalo – Coleção 2026”
Curadoria: Paula Bohrer
Artistas: 27 artistas
Visitação: de 29 de setembro a 31 de outubro, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h.
Sábados, das 10h às 13h30min
Onde: Ocre Galeria Av. Polônia, 495, São Geraldo, Porto Alegre/RS
Entrada franca
Classificação etária: Livre
Assessoria de Imprensa: Silvia Abreu (MTB 8679-4) | 08/07/26
INTERVALO – Coleção 2026
Quanto tempo concedemos a uma imagem para que ela possa, de fato, nos alcançar? Quanto estamos dispostos a olhar? Intervalo propõe uma leitura que exige disponibilidade. O que acontece quando suspendemos a necessidade imediata de compreender, nomear, classificar ou seguir adiante?
Lacan nos oferece uma perspectiva especialmente potente para esse percurso: “não se deve compreender muito rápido”. Há, nessa afirmação, uma convocação à suspensão. Uma resistência à compreensão imediata, à tentativa de encerrar aquilo que vemos em uma explicação pronta. Olhar pressupõe tempo. E talvez seja justamente nesse intervalo — entre observar e absorver — que algo possa efetivamente acontecer.
Na contramão da aceleração externa e da promessa permanente de possuir ou consumir aquilo que está fora de nós, a experiência artística nos devolve ao centro. Não necessariamente oferecendo respostas, mas produzindo perguntas. Não confirmando certezas, mas provocando deslocamentos.
Cada artista aqui reunido carrega uma investigação particular, construída ao longo de diferentes tempos, contextos e experiências. São pesquisas que se manifestam em narrativas, poéticas e materialidades singulares, revelando diferentes modos de pensar e produzir. A força da exposição está também em permitir que essas individualidades coexistam. Quando estes trabalhos se encontram, não deixam de ser o que são; ao contrário, ampliam suas possibilidades de interpretação. Entre uma obra e outra, uma nova camada de sentido emerge — não apenas daquilo que cada artista propõe, mas da relação que se estabelece entre suas produções e o olhar de quem as observa.
Ao reunir artistas distintos, a curadoria evidencia que colecionar é estabelecer relações. É reconhecer a intensidade de uma obra e perceber que ela pode reverberar em outra; é aproximar linguagens que aparentemente não compartilham um território; é construir, a partir dessas escolhas, uma linha conceitual que passa a dizer algo sobre quem coleciona. Há, nesse processo, uma dimensão de formação.
Aproximar-se da arte é ampliar repertórios, desenvolver novas formas de consciência e permitir que o contato continuado com a produção artística transforme também aquele que olha. O colecionador não apenas adquire obras: constrói, pouco a pouco, um campo de referências que lhe é próprio. Porque uma coleção também é uma forma de construir pensamento.
A arte oferece uma chave, mas somos nós que escolhemos como utilizá-la. Podemos buscar imediatamente uma resposta ou permanecer diante da pergunta. É nesse momento que algo se desloca: nossas certezas, nossas associações, as estruturas a partir das quais reconhecemos e interpretamos o mundo.
É nesse gesto que uma coleção deixa de ser apenas um conjunto de obras e passa a constituir um campo de experiência visual e sensorial, que ocupa um espaço tridimensional e se relaciona com ele.
Em Intervalo, a arquitetura permeia a exposição não apenas como suporte, mas como pensamento espacial. A expografia estabelece entre as obras uma sintaxe feita de aproximações, distâncias e respiros. O espaço não é apenas o lugar onde a exposição acontece: ele participa dela. O corpo percorre, aproxima-se, afasta-se e reorganiza continuamente aquilo que vê. Entre a obra e o espaço, entre uma obra e outra, entre presença e ausência, existe também o espaço que nos constitui: esse lugar suspenso entre observar e absorver, entre olhar e sentir, entre aquilo que vemos e aquilo que ainda está por se revelar.
Essa relação entre arte e arquitetura amplia uma questão sobre os modos de habitar. Quando uma obra ocupa um ambiente, ela não permanece restrita ao campo da contemplação. Passa a interferir na atmosfera, na percepção, na memória e na maneira como aquele lugar é vivido. A coleção, nesse sentido, também se constrói espacialmente: estabelece relações entre matéria, luz, escala, corpo e tempo.
Colecionar é escolher e criar uma linguagem própria a partir daquilo que nos atravessa. Cada escolha revela algo sobre quem olha, sobre o que se deseja preservar e sobre aquilo que se quer trazer para perto. A coleção, portanto, não fala apenas sobre as obras que a constituem, mas também sobre as relações que elas são capazes de produzir.
Nessa mostra, a arte assume esse lugar de agente de transformação. Interfere na espacialidade, expande a percepção e produz camadas amplas de significado.
Porque talvez seja justamente essa a natureza de uma coleção: criar um lugar para onde podemos voltar, um território de pertencimento que se transforma continuamente a partir das experiências que acumulamos.
Paula Bohrer . curadora

