O Jogo na pintura de Marilice Corona  

As pinturas de Marilice Corona são o resultado de um enorme deslumbre e entusiasmo pela história da pintura na Europa. Se a dimensão miniatural, implícita nas suas pinturas (com 20 x 30 cm), remete para o colecionismo setecentista, as composições elaboradas evocam as cenas de gênero, sobretudo os interiores ou as chamadas “cenas de costumes”. Contudo, ao contrário dos temas domésticos – que seria o esperado nestes contextos pictóricos –, a artista toma, como pretexto e tema, o próprio trabalho de atelier, representando-o como cenário das suas pinturas ou, em alternativa, mimando a arquitectura do espaço expositivo que acolhe a apresentação da exposição ao público, seja uma galeria, um museu ou qualquer outro espaço cultural com uma função afim. Assim, o cenário pintado é ora o lugar onde acontece a pintura como prática criativa, ora o lugar onde se expõe enquanto obra pictórica.

Mas só se pode pensar em “cena” quando existe uma acção e, de facto, estas pinturas mostram personagens a fazer qualquer coisa. Este “qualquer coisa” é muito específico pois implica sempre uma relação directa com o objecto artístico: trata-se de um jogo performativo onde cada protagonista se relaciona com o objecto pictórico de múltiplos modos: pinta-o, coloca-o na parede, olha-o, fotografa-o e, em todas estes gestos, está de costas para o observador. Justamente, uma cena não é uma encenação. É por isto que estas pinturas são inquietantes: por serem demasiado próximas aos enquadramentos da fotografia documental; expressam uma experiência de trabalho no atelier, uma visita ao museu, a montagem de uma exposição, a sua inauguração ao público. No último plano desta composição pictórica, ao fundo, exibem-se as representações que repetem e mimam outras pinturas da artista, num exercício de autorreferencialidade. Embora posicionadas nesse plano, mais ao longe, são estes os elementos da composição que mais atraem o olhar pois são os únicos que declaradamente posam para o observador, num plano frontal. Enfrentam-no e exibem-se. É deste modo que, a “pintura dentro da pintura” – outro tema caro aos pintores oitocentistas, nomeadamente na composição dos Cabinet d’amateurs – se torna motivo permanente na obra de Marilice Corona. No intrincado desafio representacional, patente em Espaço de Jogo, há uma categoria de pinturas onde, em vez de auto retratos, se vê o que pode ser identificado como “retratos da artista por ela mesma”. Esta denominação, comummente usada antes de 1950, vem propor, literalmente, a pintura como um trabalho criativo de grande amplitude conceptual: não se trata apenas da autorrepresentação  (numa correspondência de aparências) mas da representação pictórica que é evidência de um trabalho autoreferente: a pintora representa-se enquanto artista na sua actividade criativa, representa a sua obra como elemento fundamental da composição pictórica, representa as actividades inerentes à sua prática artística, o seu contexto de elaboração, produção e exibição que é o espaço onde esta obra se  dá a ver (o atelier, a galeria ou o museu) e representa os observadores e as suas reações.

O conjunto de obras de Marilice Corona apresentado na Fundação D. Luís I, [Centro Cultural de Cascais/Portugal], é um desafio lúdico para o observador que se vê envolto num jogo de reconhecimentos: identifica a Capela como um dos cenário da composição pictórica – Capela esta que funciona como espaço expositivo –, distingue e reconhece, entre os personagens representados, elementos do público no momento da inauguração, verifica a repetição de pinturas dentro de outras pinturas num jogo mise en abyme, ou seja, mais pequenas e encaixadas noutros contextos arquitectónicos, num abismo visual. É deste modo que se afere como um enredo sobre o trabalho pictórico se apresenta como texto, pre-texto e meta-texto na constituição da obra desta artista.

Por outro lado, cada uma destas pintura revela cuidado e rigor de execução a nível técnico (óleo sobre tela) e, também aqui, é possível constatar que os testemunhos da história da pintura europeia servem de modelo a estas obras. Desde a lisura da superfície, que se apresenta como uma pele brilhante e sem texturas – quase uma impressão sobre papel – onde a tinta parece diluída em âmbar, medium de excelência utilizado na pintura a partir do século XV; à riqueza da execução dos panejamentos e dos rostos cuja expressão plástica deriva tanto da escala de representação miniatural como da observância, sublinhando a ligação umbilical entre observação e representação como exercício de ordem científica; passando pelo cânone do enquadramento, obediente à proporção 2 x 3 que delimita a composição e remete para uma longa tradição iniciada pelos pitagóricos onde a música, ou melhor, o som produzido pela corda vibrante e de comprimentos específicos determina proporções harmónicas. Mas, embora as proporções destas telas se referenciem geometricamente em padrões arcaicos e a expressão da pincelada esteja informada por uma modulação de grande amplitude cromática feita à maneira das enormes cenas de história e, ainda, o tratamento da superfície pictórica remeta à planura espelhada de outros tempos, a obra de Marilice Corona actualiza, de um modo inteligente e tecnicamente competente, a tradição da Pintura como uma manifestação artística e reitera a famosa afirmação de Leonardo Da Vinci: a Pintura é Cosa Mentale.

Margarida P. Prieto
Lisboa, 3 de Abril de 2014