O TEMPO, A MATÉRIA, A ARTE
Icleia Borsa Cattani*
No trabalho atual de Heloísa Crocco, a artista, sempre sensível aos materiais naturais, teve sua atenção despertada pelas cercas existentes no pampa, definidoras das fronteiras entre propriedades. Elas são constituídas por matéria bruta: madeiras resistentes, cortadas no sentido longitudinal e perfuradas para deixar passar os arames que as unem aos moirões. Elas não são fixadas no chão (apenas os moirões o são) e permanecem semi – flutuantes, movimentadas pelo vento e marcadas pelo tempo. Quando são substituídas, os elementos retirados permanecem no campo, à mercê das intempéries. Heloísa passou a recolher este material, definindo, com ele, uma nova etapa da pesquisa Topomorfose, que desenvolve há muitos anos. Topos significa lugar, e morfos quer dizer forma; ambos termos vêm do grego e, juntos, constituem o lugar da forma. Esse lugar, para a artista, se encontra no mundo natural; por isso, optou por desenvolver seu trabalho com os descartes criados pela ação humana na natureza.
Anteriormente, ao iniciar a pesquisa, a artista trabalhou com aparas de madeiras recém cortadas, inúteis para a realização industrial de estruturas e móveis. De modo geral, nada é previsto para o seu resgate e utilização. O que a fez atentar para a potência desses elementos desperdiçados foi uma viagem à Amazônia, na qual se viu confrontada, simultaneamente, à beleza e imponência da floresta e ao drama da sua devastação. Decidida a investigar as inúmeras possibilidades do material, ela iniciou com a realização de pequenos módulos retangulares, nos quais o topo da madeira destacava os anéis de crescimento da árvore. Paulatinamente, a artista os agrupou, criando objetos quadrangulares, com os anéis dispostos em diferentes direções, em jogos de combinatórias.
Heloísa experimentou, também, a aplicação de jatos de areia, que penetravam nas partes mais tenras dos topos e salientavam os anéis saturados de resina, que não se desgastam facilmente. A irregularidade das superfícies criava relevos, sempre diferentes. Abria-se, ainda, outra possibilidade: com seus sulcos e linhas proeminentes, os relevos funcionavam como carimbos, permitindo sua utilização sobre superfícies variadas, como papéis e tecidos, e em objetos utilitários, como utensílios de porcelana, correspondendo à dupla titulação da artista, também formada em artes aplicadas.
Antes de Topomorfose, Heloísa havia realizado tapeçarias, criando relevos, depressões, nós, aberturas, chegando a objetos tridimensionais, sustentados por estruturas de madeira. Ao começar a realizar obras com este último material, ela resgatou o saber anterior, elaborando texturas com fortes efeitos visuais.
Essas experiências foram resgatadas por Heloísa no momento atual da pesquisa, que ela intitula, Aramados. Neste, as diferenças em relação aos trabalhos anteriores são tão significativas quanto as semelhanças. A matéria que dá origem aos trabalhos, mudou de fragmentos novos, intactos, informes, para madeiras de forma definida, desgastadas pelo tempo e pelos elementos naturais: o sol, o vento, as chuvas. A artista escolheu respeitar esses sinais de obsolescência do material; motivada por sua força evocadora e seu aspecto primitivo, ela iniciou a realização de novos painéis, nos quais sua intervenção mudou, ordenando os fragmentos, aparando, ou não, suas pontas, e os estruturando em determinadas posições e interrelações. Agora, os trabalhos trazem texturas reais e não mais, apenas, visuais. Nesses trabalhos, o tempo revela sua passagem, com os sinais que deixa em seu rastro. Matéria bruta, mas profundamente evocadora, com a qual Heloísa cria novos contextos e estabelece outras relações, mas, permitindo que ela conte sua própria história. Nos trabalhos finalizados, o pensamento plástico refinado da artista se faz visível pelos agenciamentos que realiza, fazendo a matéria transcender sua condição inicial para tornar-se arte.
*Pesquisadora, crítica e curadora em artes visuais. Professora aposentada do Departamento e Programa de Pós-Graduação de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS. Membro do Comitê Brasileiro de História da Arte – CBHA
