O tempo como autor da matéria: exposição de Heloisa Crocco será inaugurada no dia 08/08 na Ocre Galeria

A passagem do tempo não desgasta apenas os materiais: também revela histórias, transforma significados e amplia a potência da criação. É a partir dessa percepção que a artista Heloisa Crocco apresenta “O TEMPO, A MATÉRIA, A ARTE”, exposição que inaugura em 08 de agosto próximo, na Ocre Galeria, em Porto Alegre, reunindo um novo conjunto de trabalhos que sintetiza décadas de pesquisa dedicadas à natureza, à observação e à força expressiva da matéria. A curadoria é da pesquisadora e crítica Icleia Cattani.

A mostra marca o retorno de uma investigação iniciada há cerca de vinte anos, quando a artista produziu uma série de obras utilizando tramas e fragmentos de cercas do campo gaúcho. Agora, essas peças são revisitadas sob um novo olhar, ao lado de trabalhos inéditos construídos a partir de restos de arames, madeiras e outros elementos descartados das antigas cercas do Pampa. Materiais marcados pela ação do sol, da chuva e do vento tornam-se protagonistas de uma produção que transforma desgaste em linguagem visual.

Ao transformar objetos cotidianos e descartados em obras de arte, Heloisa Crocco revela o tempo inscrito em cada superfície. As tonalidades acinzentadas, as oxidações, as texturas irregulares e as marcas deixadas pela natureza deixam de ser sinais de deterioração para se converterem em elementos constitutivos da obra. Sua intervenção é precisa e delicada: organiza, aproxima, recompõe e cria novos ritmos, permitindo que a matéria preserve sua memória ao mesmo tempo em que assume novos sentidos.

Segundo a artista, essa pesquisa nasce também de uma experiência profundamente afetiva. As cercas, os arames trançados e os elementos construtivos das antigas fazendas da fronteira entre Brasil e Uruguai remetem às lembranças da infância da artista em regiões como Livramento, Bagé e Jaguarão. Essas referências surgem de maneira espontânea, alimentando um imaginário ligado à paisagem, ao trabalho rural e à cultura do Pampa, sem recorrer à representação literal.

Entre o rigor técnico e a intuição poética

Para Heloisa Crocco, o processo criativo permanece como uma busca permanente. Cada obra resulta do encontro entre rigor técnico e intuição poética, em um exercício contínuo de observação, refinamento das formas, cortes, proporções e composição. A artista afirma que seu interesse está menos na transformação radical dos materiais do que na capacidade de revelar aquilo que eles já carregam: tempo, história e memória.

Aos 77 anos, Heloisa também revisita sua própria trajetória. A arte, que desde a infância se tornou sua forma de compreender o mundo, continua sendo um espaço de descoberta. Ao recordar as dificuldades enfrentadas durante os primeiros anos de aprendizagem, reconhece que foi justamente na expressão artística que encontrou sua vocação e seu projeto de vida.

Nascida em Porto Alegre, Heloisa Crocco é licenciada em Desenho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e construiu uma trajetória singular, transitando entre as artes visuais, a arte aplicada e a pesquisa sobre materiais naturais. A partir da década de 1980, suas viagens pela Amazônia transformaram profundamente sua maneira de compreender a madeira, não como suporte, mas como portadora de uma linguagem própria. Desde então, desenvolve a pesquisa Topomorfose, dedicada à investigação das formas existentes na natureza e à ressignificação de materiais descartados pela ação humana.

Como observa a pesquisadora, crítica de arte e curadora da mostra, Icleia Cattani, a nova produção amplia esse percurso ao incorporar madeiras e arames que permaneceram durante anos expostos às intempéries. Diferentemente das fases anteriores, nas quais a artista transformava materiais recém-descartados, agora ela preserva deliberadamente os sinais do envelhecimento. Sua intervenção torna-se mais contida, privilegiando o agenciamento dos fragmentos e permitindo que eles “contem sua própria história”. É justamente nesse equilíbrio entre permanência e transformação que a matéria transcende sua condição original e alcança sua dimensão artística.

Ao percorrer a exposição, o visitante é convidado a experimentar uma percepção mais lenta do tempo. As obras propõem um encontro entre natureza, memória e cultura material, revelando que mesmo os elementos aparentemente esquecidos continuam carregando narrativas capazes de atravessar gerações. Em vez de ocultar o desgaste, Heloisa Crocco o celebra como testemunho da vida, convertendo resíduos do cotidiano rural em objetos de contemplação e reflexão.

SERVIÇO:

O Quê. “O TEMPO, A MATÉRIA, A ARTE. Exposição de Heloisa Crocco. Curadoria: Icleia Catttani.

Onde: Ocre Galeria | Av. Polônia, 495, São Geraldo, Porto Alegre/RS

Período: Abertura dia 08 de agosto de 2026, sábado, das 11h às 14h. Visitação de 10 de agosto a 12 de setembro de 2026, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, das 10h às 13h30min.

Quanto: Entrada franca

Recomendação etária: Livre

 

Assessoria de Imprensa:

Silvia Abreu (MTB 8679-4) | 08/07/26