Escada para o céu
Uma pequena escada vermelha flutua em meio a um tela. Ali, sozinha enquanto objeto representado, ela não conduz a lugar algum. Apenas aponta uma direção. Fosse a escada real, aonde ela nos levaria?
Tal pergunta serve de convite para nos aproximarmos da produção de Frantz e adentrarmos seu universo poético em “Escada para o céu”, nova exposição individual que o artista apresenta na Ocre Galeria.
Conhecido por sua metodologia de trabalho em pintura expandida, Frantz tem dedicado sua produção poética a esgaçar a definição usual de autoria e os limites da técnica. Ele promove esse tensionamento ao forrar paredes e pisos de ateliês de outros artistas com tela, permitindo que o uso desses espaços acumule camadas matéricas de tinta e sujeira por intervalos de tempo que podem variar de alguns meses a anos. Ao recolher essas telas, o artista passa então a conviver com imagens, selecionando enquadramentos para eventualmente assumirem o formato de obra de arte. Esse processo de edição, que se assemelha ao do fotógrafo ao estabelecer um recorte de uma cena a partir de um universo maior, pressupõe o refinamento do olhar: o artista enxerga composição onde visualizaríamos resíduo.
Resultando em imagens abstratas, as telas deixam a ver tipos de tinta, preferências de cores, formas de pintar de outros artistas, com escorridos, respingos, marcas de latas e sobreposições diversas. O acaso incorporado ao fazer. No entanto, e diferentemente do Expressionismo Abstrato, por exemplo, para o qual o aleatório estava relacionado à gestualidade de quem pintava; em Frantz o gesto artístico não está mais na mão do pintor, mas em tudo aquilo que lhe escapa.
Ao delegar ao acaso e à passagem do tempo parcela significativa da responsabilidade sobre aquilo que encontramos no espaço expositivo, Frantz não apenas assume o caráter conceitual como base de seu trabalho, como também tensiona a própria compreensão de quem é e o que faz um artista.
Tais questões não são novas para ele, que vem trabalhando dessa forma desde 1990, quando — por necessidade — forrou o ateliê que ocupava em sua temporada na Alemanha pela primeira vez. Desde então, é possível encontrar distintos desdobramentos dessa operação e uma multiplicidade de telas que refletem, sem desvelar e nem fetichizar, os ateliês de origem.
Com o passar do tempo, é possível perceber uma crescente sofisticação no seu entendimento do uso do espaço pictórico. Para esta exposição, o artista assume a marca indelével da arquitetura dos ateliês na arquitetura das imagens resultantes, incorporando o delineamento de quinas e cantos, bem como a transição entre os planos vertical e horizontal às composições. Também permite que áreas de tela cobertas por sobreposições aleatórias pelo encontro entre distintos rolos de tecido sejam enquadradas. Como resultado, é possível perceber vazios na constituição das imagens, algo recente em suas obras.
Se em seu trabalho até então havia a predominância de pinturas do tipo all over, manifestação inaugurada por Jackson Pollock em 1947, na qual a totalidade da superfície da tela é tratada com igual significância e a planaridade da imagem se evidencia, não havendo distinção entre frente e fundo; nesta série, esses planos sem cor criam distinções e hierarquias espaciais, gerando eventuais percepções de profundidade.
Outra operação que se descortina nos trabalhos ora apresentados é a organização das obras em dípticos e trípticos. Ao desdobrar uma tela em outras, Frantz aciona um jogo entre continuidades e descontinuidades possível a partir de um uso ampliado das telas originais e seus encaixes. Interessante observar que, ao fazer isso, o artista horizontaliza as imagens, nos convidando a percorrer sua distância e a experienciá-las de corpo inteiro. Tal escala acaba por incidir também no eixo de fruição das obras, provocando o afastamento e um olhar vertical ao conjunto. Olhamos mais acima, olhamos mais alto. E retornamos à escada.
O que essa escada significa, afinal? Apenas a comprovação de que até mesmo o acaso pode gerar representação. Mas é por meio do olhar de Frantz que ela ganha significado, ao ser enquadrada em um suporte, compondo uma imagem. A figuração está longe de ser algo central ao seu trabalho, mas esta singela escada nos convida a perceber outros vários pequenos detalhes presentes nas obras. Quem sabe quais outros mistérios não estariam por ali escondidos, esperando serem encontrados pelo nosso olhar?
Bruna Fetter
Frantz apresenta a exposição “Escada para o Céu” na Ocre Galeria a partir de 25 de junho
Com curadoria de Bruna Fetter, a mostra inédita em Porto Alegre reúne obras que tensionam os limites da pintura por meio de procedimentos singulares de criação
A Ocre Galeria inaugura, no dia 25 de junho, das 18h às 21h, a exposição “Escada para o Céu”, do artista visual Frantz, com curadoria de Bruna Fetter. A mostra reúne um conjunto de trabalhos recentes que aprofundam a pesquisa desenvolvida pelo artista em torno da pintura, da materialidade e dos vestígios do fazer artístico. Por meio de uma prática que desloca o olhar sobre os processos de criação e seus resíduos, Frantz apresenta obras que transitam entre apropriação, memória e transformação. Com entrada franca, a visitação ocorre de 26 de junho a 1º de agosto, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, das 10h às 13h30min.
As obras de Frantz têm origem em um processo singular de apropriação de vestígios da criação artística. Para isso, o artista cobre os pisos de ateliês com grandes extensões de lona, que permanecem nesses espaços por anos – por vezes, décadas – acumulando camadas de tinta, poeira, marcas e resíduos produzidos pelo cotidiano do fazer artístico. Ao retirar essas superfícies, Frantz identifica nos acúmulos e inscrições involuntárias um potente campo de investigação visual. Por meio de procedimentos de seleção, enquadramento e montagem, ele transforma esses fragmentos em obras, reconhecendo e afirmando essas superfícies como pintura. “O que à primeira vista parece uma composição intencional ou uma pintura cuidadosamente elaborada é, na verdade, resultado de um processo de acúmulo e de observação” reforça Frantz.
Para a curadora Bruna Fetter, a exposição também evidencia a maneira como os espaços de criação atravessam a constituição das imagens. “Para esta exposição, nos interessou pensar sobre como a arquitetura dos espaços forrados por Frantz interfere na arquitetura das imagens resultantes. Não apenas as camadas de matéria que se sobrepõem, mas também a incorporação de certos vazios na composição, algo que até pouco tempo ele não costumava assumir nas obras finais”, observa.
Segundo o artista, essa prática desloca uma ideia tradicional da pintura, historicamente associada ao gesto de fazer, representar ou construir uma imagem. Em seus trabalhos, a paisagem, por exemplo, não é pintada deliberadamente; ela simplesmente aparece. É o olhar do artista que reconhece determinadas formas e potencialidades visuais presentes na matéria acumulada e as transforma em obra.
Ao refletir sobre esse procedimento, Frantz estabelece um diálogo com transformações importantes da história da arte, especialmente aquelas inauguradas por artistas que passaram a questionar a centralidade da execução manual. Ele lembra que, a partir de experiências que ganharam força ao longo do Século XX, o ato artístico passou a incluir a escolha, a seleção e o deslocamento de objetos e situações do cotidiano para o campo da arte.
Nesse sentido, o controle e o acaso convivem de maneira inseparável em seu trabalho. O artista não determina previamente a imagem que surgirá, mas realiza uma escolha fundamental: identificar, recortar e enquadrar aquilo que merece ser visto. “Para mim, a criação está menos na fabricação de uma forma e mais na capacidade de perceber uma composição já existente”, destaca.
Essa posição também amplia sua definição de pintura. Mesmo quando a obra nasce de resíduos ou de processos alheios, ela se constitui como pintura porque existe uma intenção artística que estabelece um meio e um fim. O gesto criativo não está necessariamente na aplicação da tinta, mas na decisão de reconhecer uma imagem, atribuir-lhe sentido e apresentá-la ao público como experiência estética.
Ao desafiar as expectativas sobre autoria, técnica e representação, Frantz propõe uma reflexão sobre aquilo que costuma passar despercebido. O banal, o acidental e o residual tornam-se matéria de arte, revelando que a pintura pode existir não apenas no ato de produzir imagens, mas também no ato de descobri-las.
Sobre Frantz
Frantz (Rio Pardo, RS, 1963) é artista visual, com trajetória consolidada nos campos do desenho, da pintura e da gravura. Radicado em Porto Alegre desde a década de 1980, estudou com importantes nomes da arte gaúcha, entre eles Paulo Porcella e Danúbio Gonçalves. Em 1982, participou do Salão do Jovem Artista, recebendo Menção Honrosa, e realizou sua primeira exposição individual, “Pichações”, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs).
Ao longo dos anos, foi premiado em diversos salões de arte, entre eles o Salão Paranaense e o Salão Nacional Funarte, ampliando sua projeção no cenário artístico regional e nacional. Em 1989, iniciou uma investigação que se tornaria central em sua produção: passou a revestir o piso de seu ateliê com lonas destinadas a receber, ao longo do tempo, camadas de tinta, marcas e resíduos do próprio fazer artístico. O resultado dessa experiência foi apresentado na exposição “Pinturas Não Realizadas”, exibida na Galeria Bolsa de Arte, em Porto Alegre, e posteriormente na Fundação Vera Chaves Barcellos, em Viamão.
A partir dessa pesquisa, Frantz desenvolveu uma poética singular baseada na apropriação e transformação de superfícies marcadas pelo trabalho artístico, prática que vem aprofundando continuamente ao longo das últimas décadas. Entre suas exposições mais recentes destacam-se “Também e Ainda Pintura”, com curadoria de Francisco Dalcol, no Margs (2019), e “Transversalidade”, com curadoria de André Severo, no Farol Santander Porto Alegre (2021).
Sobre Bruna Fetter
Professora e pesquisadora do Instituto de Artes da UFRGS, Bruna Fetter é Doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo PPGAV desta mesma Universidade. Diretora Cultural da Fundação Vera Chaves Barcellos, é curadora de diversas mostras, sendo as mais recentes “Há pouco?” (2026, FVCB), “Amazona, ou a dança das resistências” (2024, MACRS), “O pé esquerdo” (2024, Galeria da PBSA), e “Haverá Consequências” (2022, FVCB). Em 2025 foi agraciada com o Prêmio Gilda de Mello e Souza, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), e o Destaque em Curadoria Institucional, do XVIII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas.
SERVIÇO:
ESCADA PARA O CÉU
FRANTZ
Curadoria Bruna Fetter
Visitação
26 de junho a 01 de agosto de 2026
de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h
sábado, das 10h às 13h30
























































